Quem sou eu

Somos a Banda Furiosa, de Cunha-SP, e promovemos, desde 2005, em nossa cidade, matinês ao estilo antigo, com marchinhas e sambas que fizeram a história do carnaval brasileiro. Nosso objetivo é resgatar a inocência das brincadeiras carnavalescas e principalmente educar as nossas crianças e jovens, para que aprendam a se divertir sem os excessos promovidos pelo desequilíbrio de que muitos foliões são tomados nos dias de folia. Salve o carnaval!!! Salve a tradição!!!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Tio Léo

Tio Léo

Quem de Cunha não conhece o tio Léo (Leopoldino Fernandes de Toledo)? Oitenta e oito anos de pura alegria e jovialidade. É dessas pessoas que fazem a gente sentir prazer de viver, só de estar com elas. Todo dia, cedinho, fôrma de salgadinhos às costas – deliciosos, por sinal, que ele e a Inês, sua segunda esposa, fazem com o maior capricho – , sai ele para abastecer as estufas de alguns dos supermercados e padarias de nossa cidade.
Sinto-me muito feliz sempre que me lembro de que tenho um tio Léo como parente.
Tio Léo é o irmão mais velho de minha avó materna e o único ex-integrante vivo do antigo Bloco do Zé Padeiro (José Antonio Moreira, com quem ele diz que aprendeu a trabalhar com o trigo).
Atualmente, não conheço por aqui maior e melhor contador de causos. Que memória! Assunto é o que não falta para ele. E para improvisar versos então? Logicamente que sobre temas engraçados.
Como andou sumido por esses dias, em primeiro de fevereiro último passei em sua casa para saber o que estava acontecendo. Achei-o sentado com a esposa, na garagem da casa simples, mas confortável, onde moram com o filho Leozinho, único do segundo casamento, rapaz de vinte e poucos anos (tio Léo tem outras três filhas e um filho do primeiro matrimônio).
Cabeça baixa, respiração ofegante acompanhada de um assobio, triste (opa!!!!), falando de ir embora pro outro lado. A Inês me disse que ele andava ultimamente com a pressão alta, e que dias antes havia sentido tonturas na rua, precisando deixar a fôrma de salgados sobre a calçada por onde ele ia e, de joelhos, apoiar-se sobre as mãos, até que alguém caridoso o ajudou a levantar-se e a voltar para casa. E desde então o tio não estava mais saindo sozinho.
̶ Ninguém liga pra mim, meu fio! ̶ reclamou o tio, carente de uma boa prosa.
Conversa vai, conversa vem, das doenças e tristezas o tio Léo passou a relembrar, sem que nem eu nem a Inês sugeríssemos isso, os tempos de carnaval dos anos de sua juventude, no final da década de 1930 e início da década de 1940, quando ele, o tio Dorinho, o tio Zé Veloso, João Bentinho (carregador oficial do boi), Zazá, Zé Capítulo, Antonio Alves, dentre outros, saíam às ruas de terra de Cunha, constituindo a formação do Bloco do tio Zé Padeiro, marido da tia Leontina Teófilo (esta irmã do meu bisavô Vardo Teófilo, pai do tio Léo).
E uma luz foi-se acendendo em seu rosto, pouco a pouco, à medida que ele ia contando o que lembrava.
Já sentados, nós três, na cozinha de sua casa, a Inês preparando um delicioso cafezinho que fomos saboreando depois na sequência da conversa, o tio Léo cantou marchinhas de carnaval como Chica, Chica Boa!, Jardineira, Upa, Upa! (A canção do trolinho), Alah-la-ô...; e foi ficando cada vez mais animado, cantando com voz cada vez mais forte, batendo a mão direita sobre a mesa como quem marcava batidas num surdo de bloco carnavalesco. Cantava e ria (Graças a Deus!!!), aquele sorriso largo e gostoso que só ele sabe dar.
Perguntei-lhe sobre os ensaios do antigo bloco, o local de realizá-los, os bonecos, enfim. Eu não podia perder a oportunidade de informar-me sobre os mínimos detalhes do saudoso tio Zé Padeiro, que proporcionou ao povo de Cunha tanta alegria e diversão nos idos carnavais de mais ou menos setenta anos atrás.
O tio Léo contou, com a maior riqueza de detalhes possível, sobre o Boi Maiado (Malhado) e a Miota (que, às vezes, ele chamava de Maria Angu). Parecia que eu estava assistindo a um documentário numa TV.
E como notei que ele estava cada vez mais bem disposto, depois de uma hora e meia mais ou menos de conversa nossa (na verdade, quem falava era ele, pois quem quer aprender tem que fechar a boca e abrir os ouvidos), perguntei-lhe se ele podia ir comigo à minha casa, que eu queria lhe mostrar uma coisa, mas não ia dizer o que era. Só ele indo mesmo pra saber do que se tratava. Na hora ele se levantou da cadeira, foi no quarto trocar as havaianas por um par de sapatos, acertou a camisa, penteou-se e fomos.
...
Chegamos. Abri o portão da frente de casa e estacionei o carro diante da porta de folha da minha garagem. Descemos.
Quando abri a referida porta e ele enxergou o boi Amoroso e a boneca Dengosa lá no canto, foi a cena de maior alegria que eu já tive a oportunidade de ver na minha vida: o tio Léo entrou na garagem aos pulos, eufórico: Ói lá, o “Maiado” co'a Miota!!!!!! Mais meu Deus do céu!!!!!! Meu fio, ocê ficô no lugá do Zé Padero!!!!!! Qui beleza, meu fio!!!!!!! Era desse jeitinho memo, num tem o qui tirá nem pôr!!!!!!! E se pôs entre os bonecos, chorando de contentamento: Dá até vontade de já saí dançano!!!!!! E começou a cantar e a dançar no meio deles. Foi a prova mais clara que já tive de que, nesta vida, a única coisa no ser humano que envelhece mesmo é o corpo. Diante dos meus olhos estava uma verdadeira criança num corpo de 88 anos, no auge da felicidade por haver reencontrado o brinquedo perdido. Engasguei e meus olhos se embaçaram de lágrimas, que fiz força de não deixar que escorressem pelo meu rosto para ele não se aborrecer.
Em seguida, subi até em casa, dizendo que ia chamar minha esposa. Mas minha intenção mesmo era pegar a câmera digital para registrar aquele momento único. Não perdi tempo. Desci novamente na garagem e lhe pedi: Eu posso tirar um retrato do senhor, tio, junto com os bonecos? Mais que depressa, ele respondeu: É já, meu fio! Que jeito que ocê qué que o tio fica? E lhe pedi que ficasse entre os bonecos mesmo. O difícil foi a alegria deixá-lo ficar parado. Fiz algumas fotos, que ficaram muito boas. E não perdi a oportunidade também de gravá-lo contando mais detalhes sobre sua vida e sobre os antigos carnavais de Cunha.
De volta à sua casa, ele não se cansava de me dizer, já por dentro do portão: Quero tá lá veno ocêis, meu fio! Num vô perdê de vê ocêis saino desse jeito no carnaval!
...
̶ Bença, tio Léo!

Victor Amato dos Santos – 07.02.2011